Thursday, June 26, 2008

foto de lostwonderland em 22/02/08 

Ele veio andando devagar, mas daquela maneira irriquieta, nervosa, que denuncia a angústia. Sempre se orgulhara de ser quieto. De saber respeitar as pessoas. De parar no momento certo. Como ele pôde chegar ao ponto onde estava? O fato é que ele estava andando da mesma forma que um jogador que, antes de apostar já sabe que vai perder. Mas não dá para evitar. Às vezes, mesmo sabendo que vai dar tudo errado, simplesmente é preciso colocar todas as fichas na mesa. É melhor chorar pelo leite derramado do que nunca tirar a caixa de leite de dentro da geladeira.
O dia estava lindo. Quando o sol batia em seu corpo ele pensava que não havia nada que o sol não melhorasse. O sol tem o poder mágico de curar todas as feridas, aquecendo lentamente, acalentando. Ele se sentiu como se o sol o tomasse no colo suavemente, beijando sua pele. Continuou andnado na hora mais quente do dia, fugindo das sombras. E então se lembrou das palavras de Mike. “Nós não somos mais convenientes um para o outro”. Ele pensava com rancor que durante todo o tempo em que estiveram juntos, Mike nunca falou na palavra amor. Para Mike só existiam as conveniências, os interesses. Mike dizia que duas pessoas ficam juntas porque são convenientes uma para a outra. Ele foi conveniente para Mike durante muitos meses. Agora não era mais. Então, tudo acabado. (O sol não era mais uma bênção, fazia um calor desgraçado. Ele estava queimando por dentro.) Cada um para o seu lado. Simples, não? Ele nunca tivera coragem de dizer que Mike era a pessoa mais inconveniente do universo e que ficava ao seu lado porque só Mike podia fazer o seu coração pular. Só Mike o fazia sentir-se vivo. Como você pode explicar a paixão para uma pessoa tão racional? Como Mike poderia entender? Há duas semanas, ele vinha pensando em uma forma de fazer Michael perceber que existiam outras coisas além das conveniências. Finalmente descobriu. Sabia que teria que apostar. E sabia também que era uma tentativa estúpida, mas ele não se importava de apostar sabendo que iria perder. Não enquanto o prêmio fosse Mike.
Foi por isso que entrou decidido no prédio, caminhando com uma certeza que não possuía. Andou com passos curtos e rápidos até o lugar onde sabia que Michael estava cumprindo sua sagrada rotina profissional. Não havia ninguém observando. Ótimo. Talvez a sorte estivesse a seu favor. Entrou no cubículo, viu os olhos castanhos e arregalados que tanto amava, e puxou o rosto branco para um beijo. Fez Mike perder as roupas sérias, sóbrias e negras enquanto o acariaciava com desespero, querendo mostrar-lhe o que era ter sentimentos ao invés de interesses convenientes. E Mike se submeteu rindo, com uma curiosidade divertida enquanto eles dois se espremiam nas posições mais formidáveis dentros de um espaço tão pequeno. Quando acabaram, ele se abraçou às pernas de Mike como um animalzinho de estimação faria, querendo pedir que não o deixasse. Mas viu os olhos marrons, eternamente perecidos com chocolate endurecendo. Mike lhe dizia com todos os gestos o quanto ele estava sendo inconveniente. O quanto detestava ter as pernas agarradas por um ex qualquer coisa. Ele leu isso em Mike. Foi por isso que sorriu, conformado, subiu as calças e se preparou para sair. Antes, porém, curvou-se para beijar Mike, ainda nu e sentado. Mike virou o rosto. Ele não podia suportar que Mike lhe negasse um beijo. Arrancou a arma que carregava na cintura e disparou apenas uma vez, na cabeça. Mike tremeu ao receber o disparo e continuou sentado no banco de madeira, como se nada tivesse acontecido. Só que agora seus olhos de chocolate se transformavam em olhos de cereja, vermelhos do sangue que escorria pela testa. Ele quardou a arma, trêmulo, inclinou-se e lambeu o sangue que manchava a pele branca de Mike. Saiu do cubículo de madeira, deu a volta em torno, ajoelhou-se. Através da treliça podia ver Mike, seu amado Mike, o peito nu, a cabeça caída para o lado. Com uma lágrima descendo pelo rosto, ele falou:
- Me perdoe, padre, porque eu pequei.

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Me recostei na cama e fechei os olhos, ainda extasiado pelo prazer de possuí-lo. Ouvia seus passos pelo apartamento deprimente e imundo, aquele apartamento sagrado onde as cortinas estavam sempre fechadas, onde a poeira se acumulava, onde o mundo exterior não era permitido. Eu sabia que ele já tinha saído do banho, enrolado a toalha encardida na cintura e se dirigia à geladeira para pegar uma garrafa de água. Ouvi o isqueiro produzindo fogo. Claro, tinha me esquecido que, entre o banho e a garrafa de água ele acendia um cigarro. E eu ainda aqui, parado, deitado, de olhos fechados. Como duas pessoas que se gostam tanto, tão parecidas em tantas coisas podem ter ritmos tão diferentes? Ele me lçembra um robozinho de vez em quando. Aliás, é engraçada a forma como as pessoas repetem os mesmos gestos inconscientemente em certas situações. Agora ele vai voltar, sentar na beira do colchão e passar a mão pelos meus cabelos me perguntando quando é que eu vou me levantar. Vai reclamar que já está quase na hora de irmos. Que eu vivo atrasando tudo. É verdade, eu preciso de virgulas em determinadas circunstâncias, eu preciso de uma pausa, um pequeno espaço em branco para poder me sentir vivo. Eu sou muito dependente de mim e dos meus sinais de pontuação. Claro que ele, que sempre odiou gramática, nunca podeia compreender essas coisas. Como alguém que vive para lá e para cá, fazendo mil e uma coisas pode alcançar a importância do espaço em branco entre um paragráfo e outro?
Ah, claro, ele está passando a mão pela minha barba. Daqui a pouco vai me chamar dauqele jeito que eu não gosto daquele jeito que eu nunca gostei e que eu proibi que ele fallasse aqui, nesses metros quadrados deprimentes. O único ruído do universo agora é o som dos cabelos dele no meu rosto enquanto ele me pede baixinho para que eu me apresse, que já está na hora, que há um compromisso logo mais… E eu, bobo apaixonado que sou, sorrio complacente e obedeço. Fazer o quê? Tá, tá, a vida lá fora está chamando. Peter Pan tem que deixar a Terra do Nunca, Alice precisa atravessar o espelho de volta e Dorothy vai bater os saltos dos sapatos de rubi três vezes. Não há lugar como a nossa casa. Mas a minha casa é aqui, no universo paralelo que nós dois criamos, no apartamento fudido que só mesmo nós dois poderíamos chamar de “ninho de amor”. Ele termina de abotoar a minha camisa e me arrasta até o elevador, depois até o carro preto que nos espera na calçada estreita. Eu ajeito o cabelo no retrovisor e vou dirigindo sempressa. As minhas vírgulas! E ouço seus lábios jovens e inocentes falando com a voz de garoto malandro:
- Vai mais rápido, pai. A mamãe vai matar a gente porque nos atrasamos de novo.

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Andarilhando sem rumo.
Sozinho no meio de mil pessoas.
(Aquele sorriso lindo de menino que iluminava o seu rosto a cada vez que me via tirar a camisa.)
Esperando meu anjo.
Procurando meu demônio.
(Você lembra qual era a sensação da minha barba arranhando a sua barriga?)
Eu te chamava de raison d’être
E você ria, mas sempre foi verdade.
(Seus dentes cerrados e os seus olhos arregalados. As suas caretas sempre foram deliciosamente medonhas.)
Eu queria que chovesse hoje
Só para as minhas lágrimas terem alguma companhia.
(Já mencionei que você me ignora da maneira mais adorável?)
Fumo cigarro após cigarro
Na esperança de ver a minha alma virar fumaça, vapor.
(Essa sua mania idiota de se vestir enquanto eu ainda estou perdido no sonho que é te possuir.)
Queria poder criar asas, que é para poder cobrir
Essa distância enorme que nos separa…
(O nosso problema é que você já acabou de me amar enquanto eu ainda nem comecei a me dedicar a você).
… E tentar te alcançar (meu querido circo de horrores!).

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A água corria devagar da torneira, fazendo barulho ao encontrar o metal. Fazer café é um ritual doce, longo. É necessário deixar que o fogo aqueça a alma e o líquido, até que tudo comece a se transformar em vapor,a dubir lentamente pelas paredes, querendo alcançar o teto, sabendo que é uma jornada efêmera e inútil. Não se faz um bom café às pressas.
Antonio pensava nisso ciente de que Tim estava estirado no sofá, o olhando, rindo do seu cuidado para fazer algo aparentemente simples. Mas as coisas simples não são justamente as mais importantes, aquelas que de fato dão sentido ao nosso louco cotidiano? Antonio teve vontade de explicar que em sua lingua materna, o espanhol, não se diz “te amo”, enchendo a boca, quase como se fosse uma piada cínica. Em espanhol se diz “te quiero”. Será que Tim poderia entender? Será que Tim poderia perceber que para ele, Antonio, amar adquiria um sentido muito especial, porque amar e querer seriam sempre sinônimos? Tim poderia amá-lo, mas não queria Antonio a qualquer hora. Tim queria muitas coisas que não amava. Mas Antonio estaria semrpe de braços abertos par aTim, a qualquer minuto, porque o queria. Tim sabia desejar o mundo, tudo ao mesmo tempo, com uma fome inigualável. Mas ele, Antônio, só podia querer uma coisa por vez. Naquele momento queria o café, concentrava-se todo em tirar a água do fogo, em fazê-la escorregar pelo coador de pano que continha o pó escuro no fundo. A água translúcida saía grossa e negra. Como alguém pode fazer uma trnasformação dessas acontecer sem colocar sua alma toda nisso? Por que Tim não podeia compreender que temos que ter muita calma com as coisas que queremos? Antonio sabia da importância de dar tempo às coisas. Jamais poderia ver o amor com aquela pressa de Tim, como uma reunião encaixada entre horários de trabalho. Precisava se aproximar devagar, ter consciência plena da realidade, tocar no ser amado, no seu objeto de desejo, despir-lhe devagar, saboreando cada instante.
Derramou o café em duas xícaras idênticas, colocou algumas colheres do pó branco e doce, mexeu durante algum tempo, para que o gosto do açúcar pegasse bem. Arrumou a bandeja metodicamente, levou até a sala com calma, sentou-se no tapete azul onde os dois sempre faziam juntos a primeira refeição do dia. Tim pegou a sua xícara, cheirou por um segundo, indiferente ao tempo enorme que Antonio levava para absorver o aroma da bebida. Tim sempre estava com pressa de viver. Começou a virar o líquido ainda quente. Antonio olhou com umamistura de irritação e amor. Porque ele não podia ir mais devagar? Por que Tim não podia esperar um pouco? Por que tudo com ele era sempre tão rápido? Antonio foi bebendo devagarzinho, sempre olhando apra o seu amado. Terminou, deu-lhe um beijo rápido nos lábios e balbuciou:
- Te quiero.
Tim tentou entender, tentou responder, mas já não conseguia. O café agia rápido demais. Deitou-se no chão, sacudido por tremedeiras mais rápidas do que poderia esperar. Finalmente, pareceu dormir. Antonio o olhava sem se alterar, esvaziando a sua prórpia xícara, feliz, por finalmente poder desfrutar do ser que tanto amava, que tanto queria, agora com todo o tempo do mundo. Despiu Tim com muito cuidado, com muita calma e começou a beijá-lo. Possuía o parceiro morto e querido da forma que o amor deveria ser: sem pressa, como um café bem feito.

Posted by Queer in 14:56:55 | Permalink | No Comments »

O carro preto diminuiu a velocidade naquela rua. Ainda estava cedo, havia apenas cinco rapazes espalhados pela calçada. Dois deles conversavam animadamente enquanto esperavam, outro se encostava junto ao poste com cara de malvado, em uma troste tentativa de parecer um cowboy de filme hollywoodiano. Um outro, sem camisa, zanzava apra cima e para baixo, com a falsa alegria que a profissão sempre exige. Hugo, o executivo muito bem vestido que estava atrás do volante, se sentiu pronto para ir embora sozinho. Aquela rua era certamente o pior ponto da cidade, apenas os homens mais decadentes se exibiam ali. Foi quando viu o quinto rapaz, parado no paralelepípedo. Ele estava longe de ser bonito, mas seu jeito nervoso de olhar para os lados, o medo estampado em suas mãos, a forma frenética com que seu tênis azul apagava o cigarro recém jogado no chão, tudo nele denunciava uma inocência instigante. Aquele rapaz, Hugo tinha certeza, era um iniciante e um iniciante nesse ramo é sempre algo sedutor. O carro foi parando aos poucos até ficar na frente daquele jovem tímido. O rapaz que estava sem camisa se debruçou na janela do carro, serelepe, tentando puxar conversa. Hugo pronunciou duas palavras, apontando para o novato:
- Quero aquele.
O menino tímido, chamado pelo colega alegre, veio arrastando os pés, sem vontade. Olhou para o motorista meio intimidado. A porta se abriu, ele sentou no banco do carona, coluna reta, pernas tensas, olhandos empre para a frente. Hugo se deliciou com sua falta de jeito e resolveu ser direto.
- Quanto?
- Vinte no carro. Mais vinte se quiser ir ao hotel.
A voz do rapaz era baixa, mas sem hesitações, como se ele tivesse um texto decorado. O carro andou alguns metros. Parou no canto mais escuro e deserto. Hugo desafivelou o cinto de couro legítimo, abaixou um pouco as calças de linho cinza. Olhou para o rapaz e fez um gesto com a cabeça. Durante um segundo, os dois se encararam e o executivo ficou surpreso ao ver a pureza estampada em seus olhos, a juventude em seu rosto. Aquele garoto parecia não ter nenhuma consciência do que estava prestes a fazer. Hugo sentiu-se meio envergonhado e meio atraído por aquela juventude. Bruscamente puxou os cabelos negros para si. O rapaz se ajoelhou no chão do carro, respirou fundo, fechou os olhos e concluiu o seu trabalho em exatos oito minutos. Ainda com o gosto amargo na garganta, voltou a se sentar e a olhar para a frente. Na verdade, pensou para si mesmo, a parte ruim do trabalho não era o ato em si. Eraa forma como seus clientes ficavam depois: o suor viscoso que escorria pelo corpo, o sorriso abjeto e meio doentio de satisfação, a forma irritante como todos eles vestiam as calças, puxavam suas carteiras e entregavam o dinheiro com desdém, como se fosse um favor, uma esmola. Por isso, se surpreendeu levemente ao ouvir a pergunta daquele cara, que acabava de ajeitar o cinto:
- Quanto pela noite?
Fez os cálculos rapidamente. Pediu o dobro do que ganharia em uma boa noite de trabalho.
- Quinhentos.
Olhou com espanto para o homem que lhe entregava notas limpas, frescas, brilhantes. Hugo já tinha voltado a dirigir quando perguntou seu nome.
- William.
O carro os levou até a garagem do motel caro. Eles desceram, Hugo abriu a porta, em um patético gesto de cavalheirsmo, para o seu acompanhante. Dentro do quarto, os dois novamente se olharam e Hugo exibiu seu melhor sorriso, aquele sorriso que costumava conquistar todas as pessoas idiotas que costumavam cercá-lo no dia a dia. William pareceu nem perceber. Não fez qualquer tentativa de ser amigável, de fingir que estava gostando da situação. Ele apenas tinha sido alugado por algumas horas. Tirou sua roupa lentamente, parou nu diante de um Hugo fascinado e, durante alguams horas, mostrou àquele homem mais velho, mais bem educado, masi rico, todos os significados da palavra prazer. Sempre com aquele ar de anjo, com sua ingenuidade quase desconcertante. Eles jantaram, fumaram e riram. Hugo perguntou e ouviu toda a história da vida curta e miserável daquele menino. Os dois se abraçaram e Hugo sentiu um fio de medo ao perceber que nunca havia estado tão vulnerável. Mordeu o lábio e pediu ao rapaz aquilo que nunca ousara pedir antes a alguém. William sorriu pela primeira vez ao ouvir o pedido. Pacientemente pegou a mão de Hugo, levou-o até a cama e o abraçou até que ele pegasse no sono, os cabelos grisalhos em seu peito magro e jovem.
Hugo acordou às onze da manhã, ainda sentindo o cheiro do rapaz nos lençóis. Abriu os olhos e percebeu que estava sozinho na cama, sozinho no quarto, sozinho no mundo. Correu pelo apartamento e percebeu que seu terno caro, sua carteira, as chaves do seu carro, tudo tinha sumido. Apenas as roupas de William haviam ficado, dobradas sobre uma cadeira, quietinhas. Hugo sentiu um líquido quente no rosto, demorou alguns instantes para perceber que estava chorando, desesperado. Onde iria encontrar aquele jovem tão inocente de novo?

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Sentado à mesa, os cabelos castanhos caindo pelo rosto, Antony esfregou a borracha no papel com alguma agonia. Mais um projeto que estava se encaminhando. Mais um trabalho brilhante, como sempre lhe diziam. Um cigarro há muito esquecido ainda teimava em queimar no cinzeiro de metal. Ele puxou outro gole de coca-cola pelo canudo de plástico azul. Que horas eram? Não, não iria olhar para o enorme relógio na parede, bem à sua frente. Já bastava ter de ouvir aquele tic tac o dia todo. Como um profissional da área criativa, ele sabia muito bem que os prazos pouco importavam desde que o trabalho fosse bem feito. E, se era assim, por que o tempo parecia zombar dele? Antony adorava trabalhar porque esta era a melhor forma de esperar até que Alex chegasse em casa. Alex! Seu querido Alex. Alex, responsável pela maior felicidade que Antony poderia sonhar em encontrar neste mundo, ou em qualquer outro mundo. Alex…
Antes as horas eram suas cúmplices, os minutos eram seus aliados. Agora, mesmo os insignificantes segundos adquiriam proporções monstruosas de inimigos. Algumas vezes Antony tinha a sensação de que , suas paredes, seus móveis, seus eletrodomésticos tudo conspirava contra ele. Sentia-se como um condenado em uma gaiola de luxo. Ele olhou para a sua coleção de lápis, escolheu aquele que possuía o grafite mais fino e começou a trabalhar nos detalhes de seu projeto. Ah, aquela sua maldita covardia! Todos os defeitos eram persoáveis em uma pessoa, exceto a falta de coragem. Antony adoraria ser cego. Insensível. Burro. ignorante. Bruto. Mas não era. Ele era simplesmente covarde. Sim, sim, ele já sabia. Pior ainda, ele já sabia há algum tempo. As imagens de Alex no carro com um rapaz jovem assaltaram a mente de Antony de uma forma cruel. Ele sabia que não era um caso passageiro. Ele já vira os dois mais de uma vez. Largou o lápis com força, andou até o banheiro, tirou a roupa quase que rasgando o tecido, como se o pano fosse o grande culpado de tudo aquilo. Abriu a torneira e entrou embaixo da água fria, desejando que ela lavasse também a sua memória. Não conseguira ainda decidir o que lhe doía mais: se era a traição de Alex ou se era a sua própria falta de atitude. Antony sabia, mas não fazia nada a respeito. E o que poderia fazer? Qualquer decisão que tomasse iria equivaler a perder Alex, tão amado, tão querido, tão precioso! E, no fim das contas, a única coisa ruim da traição era saber dela. Tirando esse detalhe, o pequeno e insignificante detalhe de saber que seu homem não era só seu, Antony tinha a melhor das vidas, com o melhor dos companheiros. Alex até ficara mais atencioso do que de hábito ultimamente. Importava o motivo? Importava que essa atenção fosse fruto de uma infidelidade? Como um detalhe tão miserável podia machucar tanto?
A única marca da traição que se fazia presente na vida dos dois era a demora de Alex para chegar em casa. Era essa demora que lembrava a Antony de sua covardia. Era cmo se cada minuto de atraso gritasse: “Você sabe que ele está com outro, você sabe e não faz nada, você sabe, você sabe, você sabe!”. Mas Antony também sabia que, se conseguisse ignorar os berros do tempo, se conseguisse ter nervos fortes o suficiente para esperar, eventualmente ouviria o barulho da chave na porta, os passos no corredor e a voz quente dando boa noite. Antony sabia que Alex iria despir-se, ele iria tomar Antony em seus braços e arrastá-lo para a cama, mordendo sua nuca e invadindo seu corpo com a felicidade. Ser tomado pelo amor e render-se ternamente a Alex… Como ele poderia acabar com a melhor coisa que já tivera em sua vida? Antony sabia que não iria tomar atitude nenhuma, que iria se acovardar sempre, que iria esperar por Alex pelo tempo que fosse necessário. Afinal, os prazos pouco importam quando o trabalho é bem feito.

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Apóstolos.

Paulo ia sempre ao cemitério. Um ano se passara e ele sabia que o morto não teria mais ninguém que se propusesse a ir semanalmente visitá-lo e chacar as flores de plástico,a placa de mármore, as rachaduras da sepultura. Pessoalmente, Paulo só fazia aquilo porque achava muito triste, deprimente mesmo, um morto que não tivesse ninguém. Abandonado. Em vida João fora muitas coisas, tivera inúmeros defeitos. Ninguém melhor do que Paulo para conhecê-los. Mas João nunca, nunca fora alguém digno de pena. E, se ele não o fora em vida, não poderia ser também na morte. Paulo ia todos os sábados visitá-lo para certificar-se de que nenhum estranho passaria e comentaria algo como: “Esse aí, coitado, ninguém se lembra mais dele.” Paulo aceitava com carinho, quase que com alegria, o dever de zelar pela reputação do morto.
Mas Paulo sabia muito bem que, se estivesse vivo, João seria o primeiro a rir desses cuidados todos. João lhe ensinara que não havia céu nem inferno. Só prazer e culpa. Não existia pecado. Só moralismo barato. Não existia amor. Só impulso. E que aquilo tudo não era zelo, nem cuidado. Era só interesse. Demarcação de território. João era frio, frio, frio como gelo, como mármore, como só ele sabia ser. Ele nunca se entregava. Para João, o cemitério era uma das maiores vigarices da humanidade porque era formado de gente que se alimentava da dor alheia. E agora… Paulo arrumou as flores com tristeza, pensando que agora João dependia daqueles vigaristar para ter um lugarzinho só seu. Um lugar frio e feio, mas o lugar favorito de Paulo em todo o mundo, porque aquele lugar era João, João, amor, João ali, deitado dentro de uma caixa de madeira que ficava dentro de uma caixa de cimento, para sempre lacrado, para sempre inacessível, João, tçao perto e tão longe, como sempre fora. Como sempre desde que os dois se conheceram. João era um pássaro lindo, que poderia ser alcançado com um simples gesto, mas que podia voar muito mais alto e muito mais rápido do que tudo. Paulo, então, se contentava em observar. E observara durante tanto tempo, com tanto cuidado, que não pode acreditar quando descobriu o corpo de João deitado na cama do apartamento, sozinho, só, totalmente deserto em volta. Só duas pessoas tinham a chave do apartamente de João. João inacessível transformado subitamente em João imóvel. Os olhos fechados a boca entreaberta. Nu. Paulo achou que ele estava dormindo, dormindo e com frio – sua pele gelada de morte causou arrepios no observador de pássaros de sabgue quente. Paulo achou que estava sonhando, mas sabia que não era bem isso. Um sonho de uma vida inteira realizado. Paulo flutuando, dançando diante do cadáver, sorrindo. Paulo montando nas costas de João, penetrando no morto. Tendo por um momento todos os seus desejos realizados. Paulo, após o frenesi, beijou carinhosamente a nuca de João, deitou ao seu lado, acendeu um cigarro e finalmente falou de todos os seus sentimentos reprimidos. Agora ele podia falar, já que eram amantes e cúmplices. E João concordava! Ou melhor, não discordava, porque ouvia tudo calado, imóvel, cada vez mais gelado. Paulo tocou de leve a sepultura, lamentando que as duas caixas o impedissem de continuar para sempre a sua história de amor. Era tão estranho que uma pessoa pudesse ser colocada dentro de uma caixa e guardada para sempre, como são guardados os brinquedos das crianças que já cresceram! Paulo sabia que seu lugar era ali, na sepultura, junto com seu amor. Sabia disso porque sentia-se podre, lágrimas podres correndo pela pele podre, coração podre, alma podre, podre, podre, todo o seu ser em completo estado de decomposição, marrom e úmido, com os ossos expostos, e ele, Paulo, só poderia ser feliz sendo podre sempre, porque ser podre, estar podre era a única forma que ele conhecia de partilhar dos vermes que agora comiam as carnes de João.
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