Ele veio andando devagar, mas daquela maneira irriquieta, nervosa, que denuncia a angústia. Sempre se orgulhara de ser quieto. De saber respeitar as pessoas. De parar no momento certo. Como ele pôde chegar ao ponto onde estava? O fato é que ele estava andando da mesma forma que um jogador que, antes de apostar já sabe que vai perder. Mas não dá para evitar. Às vezes, mesmo sabendo que vai dar tudo errado, simplesmente é preciso colocar todas as fichas na mesa. É melhor chorar pelo leite derramado do que nunca tirar a caixa de leite de dentro da geladeira.
O dia estava lindo. Quando o sol batia em seu corpo ele pensava que não havia nada que o sol não melhorasse. O sol tem o poder mágico de curar todas as feridas, aquecendo lentamente, acalentando. Ele se sentiu como se o sol o tomasse no colo suavemente, beijando sua pele. Continuou andnado na hora mais quente do dia, fugindo das sombras. E então se lembrou das palavras de Mike. “Nós não somos mais convenientes um para o outro”. Ele pensava com rancor que durante todo o tempo em que estiveram juntos, Mike nunca falou na palavra amor. Para Mike só existiam as conveniências, os interesses. Mike dizia que duas pessoas ficam juntas porque são convenientes uma para a outra. Ele foi conveniente para Mike durante muitos meses. Agora não era mais. Então, tudo acabado. (O sol não era mais uma bênção, fazia um calor desgraçado. Ele estava queimando por dentro.) Cada um para o seu lado. Simples, não? Ele nunca tivera coragem de dizer que Mike era a pessoa mais inconveniente do universo e que ficava ao seu lado porque só Mike podia fazer o seu coração pular. Só Mike o fazia sentir-se vivo. Como você pode explicar a paixão para uma pessoa tão racional? Como Mike poderia entender? Há duas semanas, ele vinha pensando em uma forma de fazer Michael perceber que existiam outras coisas além das conveniências. Finalmente descobriu. Sabia que teria que apostar. E sabia também que era uma tentativa estúpida, mas ele não se importava de apostar sabendo que iria perder. Não enquanto o prêmio fosse Mike.
Foi por isso que entrou decidido no prédio, caminhando com uma certeza que não possuía. Andou com passos curtos e rápidos até o lugar onde sabia que Michael estava cumprindo sua sagrada rotina profissional. Não havia ninguém observando. Ótimo. Talvez a sorte estivesse a seu favor. Entrou no cubículo, viu os olhos castanhos e arregalados que tanto amava, e puxou o rosto branco para um beijo. Fez Mike perder as roupas sérias, sóbrias e negras enquanto o acariaciava com desespero, querendo mostrar-lhe o que era ter sentimentos ao invés de interesses convenientes. E Mike se submeteu rindo, com uma curiosidade divertida enquanto eles dois se espremiam nas posições mais formidáveis dentros de um espaço tão pequeno. Quando acabaram, ele se abraçou às pernas de Mike como um animalzinho de estimação faria, querendo pedir que não o deixasse. Mas viu os olhos marrons, eternamente perecidos com chocolate endurecendo. Mike lhe dizia com todos os gestos o quanto ele estava sendo inconveniente. O quanto detestava ter as pernas agarradas por um ex qualquer coisa. Ele leu isso em Mike. Foi por isso que sorriu, conformado, subiu as calças e se preparou para sair. Antes, porém, curvou-se para beijar Mike, ainda nu e sentado. Mike virou o rosto. Ele não podia suportar que Mike lhe negasse um beijo. Arrancou a arma que carregava na cintura e disparou apenas uma vez, na cabeça. Mike tremeu ao receber o disparo e continuou sentado no banco de madeira, como se nada tivesse acontecido. Só que agora seus olhos de chocolate se transformavam em olhos de cereja, vermelhos do sangue que escorria pela testa. Ele quardou a arma, trêmulo, inclinou-se e lambeu o sangue que manchava a pele branca de Mike. Saiu do cubículo de madeira, deu a volta em torno, ajoelhou-se. Através da treliça podia ver Mike, seu amado Mike, o peito nu, a cabeça caída para o lado. Com uma lágrima descendo pelo rosto, ele falou:
- Me perdoe, padre, porque eu pequei.